23 de mai de 2007

Quotidiano. [azedo]

Amontoou-se na poltrona verde-limão, detestava aquela cor gritante, escancarada, que tomava todo o brilho das outras mobílias. A sala estava escura, havia um recado perto do cinzeiro gasto, dizia:

"Me espere pro jantar, mesmo que seja os restos de ontem.
Não me demoro...

beijo, azedinha!"

Azedinha! Soltou um sorriso surpreso, fazia tempo que ele não a chamava assim. Seu pai a chamava de abelhinha, com um objetivo doce, mas com um ferrão feroz... E no final, ela sempre achava que pela rima, ou qualquer outro motivo, azedinha e abelhinha eram quase a mesma coisa. E ela era as duas. Azeda, doce e fugaz.
Tirou os sapatos, aqueles sádicos aniquiladores de dedos inocentes!Alívio. Foi até a cozinha, abriu a geladeira, seus olhos cresceram olhando para a lateral, parecia que se oxidara de um dia para o outro. Tempo... Bebeu água, olhou o fogão, a parte interna e tudo vazio. Ligou para Lego's Pizaria. Metade calabreza, metade frango. Iriam comer pizza aquela noite...

Sentiu um vago vazio. A palavra pizza era estranha, estranha como aquelas cortinas levemente empoeiradas, as sujeiras nos cantos das paredes, a cor daquela maldita poltrona, e tanta coisa a incomodava em seu lar.
"Deve ser fome", pensou. Ele entrou:

-Demorou hoje! O que sobrou de ontem?
-Nada, você devorou tudo. Pedi pizza. Não me olhe assim, não estou gorda!
-Estou sem fome, azeda. Boa noite.
-Que lua é essa?
-Eu entendi. Não, não, hoje eu só quero escrever.
-E para inspiração fará sacrifícios de fome?
-Boa noite.
-Boa.

Sentou-se na poltrona, aquela cor, aquela cor. Ligou a tv, por que essas novelas existem? E por que são tão parecidas? Pulou entre canais e seus olhos pesavam. Pesavam, mais e mais... Adormeceu.

triiiiim, triiiiim.

A pizza chegou.